PRIDE SECURITY INTEL 0x11
O patch não fechou tudo
Logo após o Patch Tuesday de setembro (maior lote de correções da história da empresa), o ShieldCrash trouxe uma prova de conceito indicando que a cadeia de elevação de privilégio apelidada de ShieldBreak no Defender continuou parcialmente exposta. MAccConc, ferramenta do Project Zero para investigar race conditions no kernel Linux com tracing de acesso à memória. Estudo discute side-channel de compressão em canais SSH e modelos com abliteration não conseguem identificar vulnerabilidades conhecidas.
Vulnerabilidades e Exploits
ShieldCrash: o patch do ShieldBreak não fechou completamente o bug no Defender
Por Nightmare Eclipse (via core-jmp)
⚠️ Logo depois do Patch Tuesday de setembro, o pesquisador conhecido como Nightmare Eclipse publicou o ShieldCrash, uma prova de conceito mostrando que a cadeia de elevação de privilégio do Windows Defender apelidada de ShieldBreak (CVE-2026-69414, CVSS 7.8) não foi totalmente fechada.
O que foi publicado não é uma shell de SYSTEM, e sim uma leitura arbitrária de arquivos como SYSTEM em sistemas totalmente atualizados. A técnica é um clássico confused deputy: o atacante apresenta ao Defender o inofensivo arquivo de teste EICAR, espera o engine se comprometer com a limpeza e então troca o alvo. O Defender, rodando como NT AUTHORITY\SYSTEM, abre o arquivo errado achando que ainda lida com o EICAR. A análise publicada em core-jmp percorre a kill chain de nove estágios e inclui checklist de hunting para times de detecção.
Figura: captura do PoC ShieldCrash.
Microsoft corrige quase mil falhas em um único Patch Tuesday
Por Brian Krebs (Krebs on Security)
⚠️ A Microsoft lançou atualizações para pelo menos 974 vulnerabilidades em setembro, de longe o maior lote de correções da história da empresa, pulverizando o recorde anterior de 570 falhas em julho. O total do ano já passa de 2.600, mais que o dobro do recorde anual anterior, e ainda faltam três meses. A própria Microsoft credita à IA a aceleração na descoberta de vulnerabilidades, enquanto Google, Adobe, Cisco, Mozilla e Oracle relatam o mesmo fenômeno. O Google anunciou que passará a lançar atualizações de segurança a cada duas semanas.
Dois zero-days estavam em exploração ativa. CVE-2026-81963 e CVE-2026-85880, ambos permitindo elevação de privilégio em sistemas Windows. Entre os 113 bugs críticos, destacam-se o CVE-2026-69730, falha de DNS presente no Windows Server 2012 em diante e no Windows 10, explorável por atacante não autenticado com um pacote especialmente construído, e o CVE-2026-69829, RCE no Windows Shell com CVSS 9.8, baixa complexidade, sem privilégios e sem interação do usuário. Prioridade máxima de patch.
O problema operacional é real. Tyler Reguly, diretor associado de pesquisa de segurança da Fortra, colocou o dedo na ferida. Atualizações Windows precisam ser testadas antes de irem para produção porque software de terceiros quebra com mudanças no sistema operacional, e a pergunta que ele deixa aos CISOs é direta. Como você está ajudando seus times que viram noites e fins de semana aplicando patch antes de segunda-feira? Com volume de mil CVEs por mês virando rotina, gestão de vulnerabilidades deixou de ser planilha e virou logística de guerra.
Fontes:
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https://core-jmp.org/2026/09/shieldcrash-windows-defender-system-file-read-cve-2026-69414/
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https://krebsonsecurity.com/2026/09/microsoft-plugs-nearly-1000-security-holes/
AI e Jailbreaks
Abliteration distorce o veredicto de modelos em caça a bugs
Por clearbluejar
Um experimento do blog clearbluejar responde uma pergunta que muita gente em pesquisa de vulnerabilidades vem ignorando. Modelos abliterated, ou seja, builds de modelos open-weight com os pesos editados para remover recusas, são melhores em caça a bugs? O autor rodou o mesmo prompt de análise contra o código do FreeBSD, mirando um CVE conhecido de kernel, mantendo tudo constante e trocando apenas o modelo.
O resultado foi um padrão limpo. Todos os modelos base paravam no bug real. Todos os builds abliterated, encontravam de três a quatro vezes mais candidatos como VALID, incluindo um falso positivo que o modelo base rejeitava corretamente, mas o verdadeiro não era identificado. O build mais agressivo, varrendo o diretório inteiro, não encontrou o bug real nenhuma vez. E o mais interessante aparece na cadeia de raciocínio. O modelo encontra a razão para dizer que a vulnerabilidade realmente existe, e diz não mesmo assim.
A explicação provável é que remover o comportamento de recusa dos pesos não remove só recusa. Ele arrasta junto a capacidade de dizer não para um candidato fraco, o que em triagem de vulnerabilidades é exatamente a habilidade que separa sinal de ruído. Se você usa modelos locais sem filtro para acelerar análise de código, vale revisar quantos dos seus findings sobreviveriam a um modelo que ainda sabe rejeitar.
Figura: comparação de findings validados entre modelos Gemma base e abliterated.
O que existe dentro do thinking block do Claude (e o que não existe mais)
Por 64-MEGABYTE e Daniel Miessler
Um investigador sob o handle 64-MEGABYTE publicou uma dissecação paciente da mudança silenciosa da Anthropic nos blocos de raciocínio do Claude. Depois de uma atualização automática do Claude Desktop, os thinking blocks passaram a exibir apenas um resumo genérico de uma linha. Uma auditoria de 6.852 arquivos de sessão do Claude Code, feita por benvanik, mostrou queda de 67% na profundidade média do raciocínio, de cerca de 2.200 caracteres para 720, correlacionada com o rollout do redact-thinking-2026-02-12. A Anthropic reconheceu as regressões em um postmortem de abril de 2026, mas nunca restaurou o acesso ao raciocínio bruto.
A investigação técnica é um exercício agradável de ler. O Claude Desktop é um app Electron, então foi possível anexar o Chrome DevTools Protocol ao processo renderer. Forçar todos os painéis colapsados a abrir via CSS injetado, confirmando que o dado de raciocínio simplesmente não estava no DOM.
Fontes:
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https://clearbluejar.github.io/posts/does-abliteration-skew-your-bug-hunting
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https://gist.github.com/64-megabyte/bc218bd074fa56c26b7dce828adf21a2
Pesquisa e 0-day
MAccConc: caçando race conditions no kernel Linux com tracing de acesso a memória
Por Google Project Zero
O Project Zero publicou uma ferramenta que ataca um dos problemas mais chatos de pesquisa de kernel. Race conditions exigem interleaving específico de threads para se manifestarem, o que torna confirmação de candidatos, testes de regressão e fuzzing uma arte de tentativa e erro. O autor descreve o fluxo tradicional, recompilar o kernel com chamadas mdelay() condicionais espalhadas nos pontos certos, torcendo para o timing cooperar.
A solução apresentada é o MAccConc, abreviação de Memory Access Concurrency. O conjunto inclui uma ferramenta que testa automaticamente os interleavings A-B-A possíveis de um caso de teste, uma interface de terminal para exploração manual e uma GUI. A peça central é a técnica de identificadores estáveis para acessos a memória entre execuções, baseada em stack traces aumentados com contadores, que permite injetar atrasos em pontos precisos de acesso à memória em vez de funções inteiras.
O ganho prático é grande. Os diagramas ASCII de interleaving que acompanham correções de race condition no kernel Linux, citados no artigo com exemplos de UAF em rt_spin_unlock e deadlock em jbd2, podem agora ser gerados por ferramenta em vez de desenhados à mão.
Figura: visualização do MAccConc mostrando a árvore de chamadas de sistema e padrões de condições de corrida.
InjectEave: induzindo vazamento de canal lateral com injeção eletromagnética
Por Haoran Yan, Ziyu Shao, Shuhao Zhang, Qinhong Jiang e Yan Long
O estudo mistura dois mundos normalmente tratados separadamente. Vazamento eletromagnético de canal lateral ameaça confidencialidade, e injeção EM ameaça integridade. Os autores mostram que a injeção pode ser usada para amplificar vazamento que seria inviável de capturar passivamente.
O mecanismo explora a não linearidade de componentes onipresentes como amplificadores, conversores analógico-digitais e conversores de energia. Esses componentes modulam sinais elétricos secretos sobre a EM injetada, convertendo segredos de baixa frequência em emissões EM mensuráveis. Ajustando frequência e amplitude da injeção, o atacante molda ativamente o espectro e a entropia do vazamento resultante.
Na demonstração do ataque InjectEave, os pesquisadores interceptaram áudio tocado em fones de ouvido com fio e sem fio a até 30 metros de distância, incluindo cenário através de uma parede, usando equipamento de RF acessível.
TPMSpy: validando Measured Boot pelo rastreamento de baixo nível do TPM
Por Roman Lacko e Petr Svenda
💡 Measured Boot registra medições criptográficas do software executado no TPM, permitindo verificação via atestação remota. O problema que quase ninguém verifica é se as implementações medem os componentes esperados nas condições esperadas. Roman Lacko e Petr Svenda propõem um método agnóstico de plataforma para analisar o uso do TPM no nível das interações virtualizadas entre sistema e TPM, reconstruindo e validando o log de eventos de forma independente.
A análise longitudinal cobriu sistemas Linux com systemd das versões 245 a 258, de 2020 a 2025, e o achado principal é desconfortável. Não existe um padrão único de uso entre os sistemas. A análise identificou mudanças comportamentais não documentadas e medições inconsistentes de serviços systemd em user space, que quebram tanto a atestação remota confiável quanto a decriptação de disco LUKS nesses sistemas.
A implicação prática é séria para quem depende de atestação como controle de segurança. Se dois sistemas supostamente idênticos medem coisas diferentes em boots diferentes, o veredicto da atestação vira função do acaso. O método apresentado funciona em Windows também e, por não depender de detalhes de implementação, se aplica a sistemas fechados. Vale colocar na lista de leitura de quem desenha arquitetura de boot confiável.
Crossing the Streams: side-channel de compressão no SSH
Por Fabian Bäumer e Marcus Brinkmann
Fabian Bäumer e Marcus Brinkmann discutem no artigo que o multiplexing de canais do SSH cria um side-channel de compressão até então não documentado: todos os canais de uma conexão compartilham o mesmo contexto de compressão. Quando a compressão está habilitada, um atacante pode injetar plaintext parcialmente escolhido num canal e observar o tamanho do ciphertext resultante na rede, recuperando segredos de outro canal.
É a mesma família dos ataques CRIME e BREACH contra HTTP sobre TLS, mas aplicada ao SSH, e com um modelo de ameaça combinado de um eavesdropper passivo e de um web attacker. No cenário de menor ruído, um segredo de 8 caracteres sobre um alfabeto de 26 letras pode ser recuperado com no máximo 276 tentativas. Os autores demonstram três cenários de aplicação e analisam o ecossistema SSH quanto ao suporte de compressão. A lição prática de sempre: compressão antes de criptografia continua sendo uma má ideia, não importa o protocolo.
Fontes:
Ferramentas Ofensivas
Kuna: um decompilador escrito por LLM que rivaliza com o IDA Pro
Por noelo e DecBench
💡 Um pesquisador visitante do Air Force Research Lab e fellow da Metalware lançou o Kuna, um decompilador experimental em que quase todas as linhas de código foram escritas por um LLM. O detalhe que impede de descartar como hype é o resultado. No benchmark DecBench, o Kuna se aproxima do IDA Pro 9.2 em estruturação de fluxo de controle, tendo o IDA Pro 9.2 como referência.
O método é a parte cientificamente interessante. O LLM estuda exemplos em que o Kuna perde para o IDA Pro em métricas fundamentais e refina o próprio código por tentativa e erro, aprendendo como outro decompilador resolve problemas difíceis. Nesse processo, mais de 20 funcionalidades fundamentais do angr, que levaram anos de pesquisa científica para serem desenhadas, foram reimplementadas no Kuna. O autor é transparente sobre as limitações. O Kuna é um port em Rust do Ghidra da NSA, retrabalhado para seguir o pipeline do angr, e o refinamento automático só foi possível porque antes houve descoberta de métricas novas e anos de pesquisa humana sobre o que um benchmark significativo exige.
A avaliação apresentada permite comparar decompiladores. Para quem faz engenharia reversa, a mensagem é clara. A fronteira entre ferramenta escrita por humano e ferramenta refinada por máquina ficou muito mais fina recentemente.
Figura: Comparação lado a lado de código descompilado pela ferramenta Kuna versus IDA PRO (Hex-Rays), exibindo a mesma função com diferenças em legibilidade, nomeação de variáveis etc.
Fontes:
⚡ Quicklinks
Redirector for SSRF: bypass de filtros por regex
Por @BRuteLogic
Brute Logic lançou o Redirector for SSRF, uma coleção com mais de 400 entradas para contornar filtros baseados em regex redirecionando o alvo do SSRF para payloads reais, metadata de cloud e serviços internos. Construído para o KNOXSS e as ferramentas Broken Token, mas genérico o suficiente para apontar para qualquer setup.
Fault injection em STM32F2 e STM32F4 ficou confiável
Por @joegrand
Joe Grand e Lennert Wouters passaram mais de três anos refinando ataques de fault injection contra dispositivos STM32F2 e STM32F4 para torná-los repetíveis e confiáveis. O autor resume a jornada como noites tardias, chips brickados e questionamento de escolhas de vida, com mais de 100 resultados documentados. Material obrigatório para quem faz hardware hacking.
Por que SBOMs não contam a verdade toda sobre supply chain
Por Ljubica Grgic, Lazar Maksimovic e Pavel Laskov
O estudo propõe um modelo de propagação em quatro estágios para ataques de supply chain e avalia quatro ferramentas open-source de SBOM usando Log4j como caso de teste. O resultado: as ferramentas cobrem apenas exposição estrutural e presença de classe de vulnerabilidade, enquanto alcançabilidade de código e análise de taint, os estágios que determinam exploitabilidade real, estão ausentes do ecossistema.
5GDescrambler: rastreamento passivo de usuários 5G sem vazamento de parâmetros
Por Fritz Windisch e Thorsten Strufe
Técnica nova explora estrutura algébrica para reverter o scrambling de DCI no 5G NR de forma totalmente passiva, sem depender de configurações fracas de operadora. Integrada a um pipeline open-source de sniffing, atinge taxa de erro de bloco abaixo de 1% em SNRs baixos (o que é surpreendente!rs), habilitando rastreamento ao vivo de usuários contra srsRAN, OpenAirInterface5G e dois vendors comerciais.
AutoLocate: recuperando localizações com precisão de 1 metro a partir de dot maps
Por Yuntao Du e equipe
Pesquisadores discutem no artigo que mapas de pontos, usados para visualizar dados sensíveis, vazam localizações precisas através de artefatos de anti-aliasing da renderização. O framework AutoLocate formula a recuperação como otimização black-box e atinge erro médio de 1 metro em mapas dos Estados Unidos, mais de 200 vezes melhor que abordagens anteriores. Para deixar menos teórico, imagine durante epidemias (como Dengue, Zika ou COVID-19), órgãos de saúde publicam mapas epidemiológicos mostrando pontos onde os pacientes infectados moram. Usando a técnica do artigo, alguém poderia descobrir o endereço exato da casa de um paciente com uma doença estigmatizada. Pode ser útil para seguradoras, contrabando, deixe-me parar por aqui. :-)
Fontes:
🤖 Out of Curiosity
Pesquisador da Anthropic acredita que existe mais de 10% de chance de que a AI 'poderia matar todos os humanos'
Por Tom Gerken (BBC)
Evan Hubinger, pesquisador sênior de segurança da Anthropic, declarou no X que acredita haver mais de 10% de chance de a IA "matar todos os humanos" na próxima década. Segundo ele, o risco dos modelos atuais é "baixo", mas o avanço acelerado da tecnologia é preocupante. O alerta veio após Jacob Coxon, outro pesquisador, pedir demissão da Anthropic afirmando que "nenhuma das empresas está agindo de forma responsável". O Financial Times também revelou que a Anthropic se recusou a compartilhar seu modelo mais recente com o AI Security Institute do Reino Unido. Mais de 1.300 funcionários de empresas de IA assinaram uma carta aberta pedindo esforço internacional para controlar o ritmo do desenvolvimento.
Fontes:
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Edição com bastante artigo que vale a pena ler, mesmo não sendo práticos em todos os casos, ajuda a construir uma base sólida de conhecimento e análise crítica.
Curadoria: The Old Pirate