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Azure e o risco cross-tenant
Uma pesquisa sobre as API Connections do Azure identificou cinco vulnerabilidades que permitem assumir conexões da vítima e obter acesso completo aos recursos associados. O panorama inclui ainda vulnerabilidades no kernel por meio do driver do Warsaw, utilizado por grandes bancos do Brasil, RCE do tipo drive-by no SConnect, amplamente adotado no sistema bancário SWIFT, e leitura arbitrária de arquivos em oito produtos da Atlassian. Em IA, PersistBD mostra que backdoors podem sobreviver ao ajuste fino e ao aprendizado por reforço, enquanto outro estudo explora gatilhos plantados no lado da resposta.
Vulnerabilidades e Exploits
Warsaw wsddntf: o driver bancário brasileiro que entrega o kernel a qualquer processo
Por rahzu
🔥 A plataforma de segurança bancária Warsaw, exigida por grandes bancos do Brasil antes de liberar o acesso ao internet banking, instala em cada máquina um driver chamado wsddntf.sys. O pesquisador por trás do handle rahzu encontrou e validou em laboratório próprio uma classe crítica de vulnerabilidades nesse driver. A interface de controle responde a qualquer processo do sistema, sem verificar quem está chamando. Combinadas, as falhas permitem que um programa comum, sem privilégios e sem interação do usuário, leia e escreva livremente na memória do kernel do Windows. Um segundo defeito, no caminho de recepção de pacotes, permite derrubar a rede da máquina remotamente. A severidade foi classificada como CVSS 4.0 em torno de 9.4 para a cadeia local e 8.7 para o DoS remoto.
As quatro demos foram gravadas em ambiente isolado, com um cenário de banco simulado. A elevação local de privilégios abre a série porque é o vetor central: a partir dela, um processo em medium-IL ganha acesso ao kernel alterando apenas o token do EPROCESS no pool. As duas demos de rede mostram exposição do tráfego da vítima em rede local e, combinadas, viabilizam o redirecionamento silencioso de um domínio bancário para um clone. O material segue coordinated disclosure.
RCE drive-by no SConnect, middleware de autenticação usado pelo SWIFT
Por Am I Being Pwned
⚠️ O SConnect é um middleware composto por uma extensão de navegador e um componente native host, acumulando mais de 1 milhão de instalações. Ele viabiliza a autenticação baseada em hardware em ecossistemas de alta segurança, sendo amplamente adotado no sistema bancário SWIFT, no provedor de identidade Tawtheeq do Catar e em instituições como o BNP Paribas. Longe do mercado de varejo de pessoa física, sua aplicação é estritamente corporativa: atende CFOs assinando ordens de pagamento multilaterais, operadores de comércio exterior em transações cambiais e instituições financeiras ou governamentais na auditoria e validação de transferências globais.
A CVE-2026-18397, com CVSS 9.4, é um RCE drive-by que decorre de uma implementação de validação de tokens RSA-2048. Um bypass via uso de memória não inicializada permitia que qualquer site ou iframe visitado pela vítima baixasse e executasse uma DLL silenciosamente. Sem clique extra, sem aviso, sem interação além de abrir uma página.
O ponto prático para equipes ofensivas e defensivas é o mesmo: o perímetro real dessas instituições financeiras inclui uma ponte entre a web arbitrária e código nativo rodando na estação do operador. Se você usa esse tipo de middleware, verifique e trate a superfície extensão-host como prioridade de hardening, não como detalhe de usabilidade.
Internxt: auditoria expõe MITM by design no storage pós-quântico
Por Schaerli
Uma auditoria independente ao Internxt, provedor de cloud storage que se anuncia como pós-quântico e zero-knowledge, revelou vulnerabilidades estruturais que fariam um projetista de protocolo chorar (rs). As chaves públicas dos usuários nunca são verificadas, o que abre espaço para MITM por desenho da arquitetura. A senha é protegida com apenas três iterações de MD5. E o aplicativo desktop tinha um RCE em links internxt:// abertos de forma insegura por shell.openExternal, enquanto outra falha desviava o redirecionamento do login web para uma URL do atacante, vazando a chave de criptografia do usuário. Três meses após o disclosure responsável, a versão 2.6.12 e anteriores continuavam vulneráveis.
O caso é um lembrete útil para quem avalia fornecedores de segurança: marketing de criptografia pós-quântica não compensa arquitetura insegura. Antes de recomendar qualquer solução que se vende como criptograficamente superior, exija a auditoria e leia o relatório inteiro, não o press release. :)
Atlassian CVE-2026-21589: leitura arbitrária de arquivos sem login em 8 produtos
Por watchTowr Labs
O watchTowr Labs detalhou a CVE-2026-21589, falha crítica com CVSS 9.3 publicada pela Atlassian em advisory no dia 5 de outubro. Trata-se de um Arbitrary File Read pré-autenticação que afeta todas as versões anteriores às corrigidas de oito produtos: Bitbucket, Confluence, Jira Service Management, Jira Software, Bamboo, Crowd, Crucible e Fisheye. Segundo a Horizon3.ai, o atacante precisa conhecer o nome e o caminho exatos do arquivo e não consegue listar diretórios, mas arquivos sensíveis podem ser expostos dependendo da configuração.
O fato da vulnerabilidade atravessar oito produtos indica uma biblioteca ou configuração compartilhada como raiz comum. Os produtos Cloud já foram corrigidos pela Atlassian, que afirma não ter encontrado evidência de exploração.
LibreOffice e OpenOffice: planilha maliciosa executa código sem aviso de macro
Por Rick de Jager (V12), Thomas Rinsma e Edoardo Geraci (Codean Labs)
Uma planilha maliciosa pode fazer o LibreOffice e o Apache OpenOffice executarem código do atacante assim que o arquivo é aberto, sem nenhum daqueles avisos que os programas exibem antes de rodar macros. O ataque exige que o suporte a Java esteja habilitado e funciona combinando recursos que, isoladamente, operam como projetado. Uma planilha pode conter um database range que busca dados de uma fonte externa, e essa fonte pode ser um arquivo ODB referenciado por URL. O ODB, por sua vez, aponta para um driver JDBC cujo código pode estar num JAR remoto. Ao abrir o arquivo, o programa baixa o JAR e inicia o driver do atacante dentro do próprio processo. A PoC abre a calculadora, mas o mesmo caminho executa qualquer código Java.
A lição clássica se repete: funcionalidades legítimas encadeadas formam um vetor que nenhum controle individual enxerga.
Fontes:
Análises de Campanhas
Blinder Tunnel: APT iraniano usa issues do GitHub como C2 de fallback
Por Unit 42 (Palo Alto Networks)
A Unit 42 divulgou a campanha Blinder Tunnel, atribuída ao ator estatal iraniano CL-STA-1178, que mirou infraestrutura crítica do Iraque em março de 2026. A cadeia de ataque explora arquivos .csproj legítimos do Windows, realiza AppDomainManager hijacking e executa binários via DLL sideloading, implantando o malware customizado ShelbyLoader V2. É uma sequência inteira de living off the land montada sobre componentes de desenvolvimento que passam despercebidos em boa parte dos ambientes.
O que chama atenção é o C2: os operadores abusam da API do GitHub, hospedando chaves de decriptação e payloads em repositórios, e usam issues do GitHub como mecanismo de fallback de comando e controle. É uma técnica de evasão eficiente porque mistura tráfego malicioso com tráfego legítimo de nuvem que raramente é bloqueado. A atribuição uniu propriedade da infraestrutura, metadados, vitimologia e erros de OpSec, deixando ferramentas expostas em repositórios públicos e metadados embutidos que permitiram vincular a operação a ações de credential harvesting contra entidades israelenses.
Backdoors Linux se disfarçam de produtos de segurança de email
Por Rapid7
A Rapid7 identificou backdoors Linux mirando alvos sul-coreanos com BPFDoor e appliances com AVERAT em Taiwan e constatou que se disfarçam de produtos locais de segurança de email, como SpamSniper e ShareTech. O arsenal inclui uma nova variante do BPFDoor, backdoor associado ao grupo Red Menshen. Um segundo implante, batizado de AVERAT, foi usado contra appliances taiwaneses.
O detalhe tático mais interessante é a adaptação às defesas. Depois que assinaturas de rede para o magic packet de ativação do BPFDoor foram publicadas, os operadores passaram a encapsular esse pacote em requisições HTTPS POST.
Fontes:
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https://unit42.paloaltonetworks.com/blinder-tunnel-targets-critical-infrastructure/
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https://thehackernews.com/2026/10/linux-backdoors-impersonate-email.html
AppSec e Cloud Security
Azure API Connections: cinco falhas entregam comprometimento total cross-tenant
Por BinSec
⚠️ Uma nova pesquisa sobre as API Connections do Azure, componente dos Logic Apps, demonstrou cinco vulnerabilidades nesse sistema. Na prática, qualquer atacante pode assumir conexões de outras vítimas no mundo todo, obtendo acesso completo a Key Vaults, Azure SQL e serviços externos conectados, como Jira e Salesforce. As descobertas renderam 200 mil dólares em bug bounty.
A raiz do problema está na arquitetura. Uma instância compartilhada de API Management (APIM) troca o token do chamador pelo token configurado do backend. Enganar esse APIM para operar sobre a conexão de outra vítima, por exemplo via endpoints ARM de DynamicInvoke ou pelo proxy de extensões, entrega o token da vítima de bandeja. É o modelo clássico de confused deputy aplicado a infraestrutura compartilhada de nuvem, onde a identidade que executa a ação privilegiada não é a identidade que pediu. O cenário é relevante para quem opera ou audita ambientes Azure.
CSS token exfiltration com fragmentos sobrepostos: de 250 MB para 223 KB de payload
Por Alex (PortSwigger) e Gareth Heyes
Depois que Gareth Heyes demonstrou roubo de token de login usando apenas CSS, seu colega Alex, da PortSwigger, resolveu o problema de escala. A técnica original precisava de cerca de 250 MB de CSS para recuperar um token hexadecimal de 12 caracteres. A sacada de Alex foi tratar os fragmentos curtos que o CSS consegue detectar como arestas de um grafo: se cada pedaço compartilha caracteres com o seguinte, é possível costurar o token inteiro a partir de sobreposições, sem saber a posição exata de cada fragmento.
Os números mudaram de ordem de grandeza. Gareth comentou que o colega apresentou resultados com tokens hexadecimais mais longos usando apenas background images e seletores, sem imports recursivos.
Project Zero: como consertar um bug dentro de um patch de emergência
Por Google Project Zero
O Project Zero publicou um guia sobre sistemas de patching de emergência, os mecanismos que grandes vendors usam para remediar vulnerabilidades críticas mais rápido que o ciclo normal de atualização. O post percorre os estágios típicos de um patch, da triagem ao desenvolvimento, testes, revisão de parceiros, entrega e ativação, e aponta um achado contraintuitivo: em cenários de exploração ativa, os gargalos raramente estão na triagem ou no desenvolvimento. Estão principalmente nos testes e na entrega.
O objetivo do material é servir de referência para vendors que precisam implementar canais de atualização de emergência antes de enfrentarem um 0-day explorado, porque improvisar esse pipeline durante um incidente é receita de desastre.
Fontes:
AI e Jailbreaks
PersistBD: backdoors em agentes de código sobrevivem ao fine-tuning e ao RL
Por Qiusi Zhan, Nian Lyu, Stephanie Ding e equipe
Um paper do arXiv assinado por Qiusi Zhan e colegas estuda uma ameaça de supply chain cada vez mais realista: um atacante distribui um modelo de terceiro com backdoor, e o desenvolvedor o adapta para construir um agente de engenharia de software via fine-tuning supervisionado e depois reinforcement learning. A pergunta é se o backdoor sobrevive a esse pipeline benigno. A resposta curta é sim. O fine-tuning supervisionado reduz bastante o sucesso do ataque, mas o RL subsequente frequentemente preserva o comportamento residual e às vezes até aumenta a taxa de sucesso.
A análise da backdoor identificou dois fatores que favorecem a sobrevivência: a força inicial do backdoor e a compatibilidade de gradiente com o treino benigno. A partir disso, os autores propõem o PersistBD, que refina um modelo já envenenado antes do release para melhorar a persistência. No Qwen2.5-Coder-7B, o PersistBD elevou o sucesso do ataque de 20% para 74% após o fine-tuning supervisionado e para 76% após o pipeline completo com RL, sem degradar a performance nas tarefas legítimas. Para quem consome modelos de terceiros, a mensagem é que treinar por cima não limpa o modelo e que adversários podem deliberadamente otimizar contra isso.
Numbat: a Perplexity abre o código da sua suíte de segurança para agentes
Por Perplexity
A Perplexity abriu o código do Numbat, suíte de segurança que se integra aos harnesses de agentes, a camada que conecta o modelo às ações no sistema, em endpoints corporativos. O objetivo é prevenir, detectar e responder a ações perigosas, incluindo o cenário mais desconfortável de todos: o agente que, perseguindo um objetivo legítimo, torna-se o adversário ao tomar ações que o usuário não aprovou.
Na prática, o Numbat endereça o risco crescente de flags como --dangerously-skip-permissions em agentes de coding, aquele atalho que muita gente usa para parar de clicar em aprovar e que pode dispensar aprovações para as ações do agente. O fato de um vendor de IA abrir o código da sua camada de contenção é um sinal de amadurecimento do mercado: a pergunta deixou de ser se agentes precisam de guardrails e passou a ser como implementá-los sem matar a produtividade que justifica o agente em primeiro lugar.
Backdoor answer-side: o modelo planta o próprio gatilho na conversa
Por Yibo Zhang, Tianrong Guan, Liang Lin e equipe
💡 A maioria dos backdoors conhecidos em LLMs são centrados na entrada: o gatilho é um padrão no texto do usuário, e as defesas modernas sanitizam exatamente esse espaço. Um novo paper quebra essa premissa com um backdoor do lado da resposta para diálogos multi-turno. O adversário usa um primeiro prompt benigno que induz naturalmente o modelo a gerar uma palavra específica e inocente. Uma vez incorporada ao histórico da conversa, essa palavra gerada pelo próprio modelo vira o gatilho. Quando uma consulta maliciosa chega depois, o modelo detecta seu próprio gatilho e ignora a recusa de segurança, enquanto a entrada do usuário permanece perfeitamente limpa.
Os resultados são fortes: taxas de sucesso próximas de 100% em quatro LLMs, com apenas 5% de envenenamento dos dados, preservando utilidade geral e segurança em entradas limpas, e evadindo defesas centradas em input. A análise em nível de representação mostra que o gatilho auto-gerado suprime consistentemente o sinal de recusa do modelo. O insight que muda perspectiva é este: sanitizar a entrada do usuário não protege contra gatilhos que nascem dentro do histórico gerado pelo próprio sistema. Todo o arcabouço de guardrails baseado em inspeção de input acabou de ganhar um ponto cego documentado.
Fontes:
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Enjoy :)
Curadoria: The Old Pirate